1º DE JUNHO: DIA NACIONAL DA IMPRENSA BRASILEIRA

Neste ano de 2014, a imprensa brasileira está completando 206 anos. No dia 1º de junho de 1808, começou a circular, em português, na Inglaterra, o Correio Braziliense (1808-1822) do gaúcho Hipólito José da Costa (1774-1823). Acusado de pertencer à Maçonaria, ele foi preso, em Portugal, pelo Santo Ofício, no ano de 1802.  Durante sua prisão, sofreu tortura; porém não revelou nenhum nome ligado à Ordem Maçônica.  Em fuga espetacular, em 1805, chegou à Inglaterra, iniciando um novo período de sua vida. Neste país contou com o apoio do seu amigo maçom, o Duque de Sussex, filho do Rei Jorge III, que o introduziu na sociedade inglesa, na qual viveu 18 anos. Hipólito José da Costa faleceu, em 11/09/1823, sem tomar conhecimento da sua nomeação como cônsul geral do Brasil na Inglaterra.

Preocupado quanto à corrupção, e a forma como o Brasil era administrado por Portugal, Hipólito José da Costa criou o Correio Braziliense que se constituiu numa tribuna em prol da liberdade de pensamento e divulgação dos principais acontecimentos na Europa e no Brasil. Este mensário,que totalizou 175 edições, circulou clandestino, na Colônia, devido à Censura Régia, sendo responsável pela difusão dos ideais liberais que nortearam a Independência do Brasil (1822). Para que compreendamos a dimensão de sua obra é fundamental a leitura de dois livros escritos pelo Patrono da Imprensa Brasileira: Diário de minha viagem para Filadélfia (1798) e Narrativa da Perseguição (1811).

O reconhecimento de Hipólito José da Costa (1774-1823) se efetivou com a lei 9.831 assinada, em 13/09/1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, reconhecendo o dia 1º de junho como o Dia Nacional da Imprensa. Durante o processo, a participação da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Fundação Assis Chateaubriand e do jornalista gaúcho Raul Quevedo (1926-2009) foi fundamental. Este último, admirador incondicional da obra de Hipólito da Costa, lutou incisivamente desde 1972, para que o Correio Braziliense (1808-1822) fosse reconhecido como o marco inaugural da nossa Imprensa. Desde o Estado Novo (1937-1945), implantado por Getúlio Vargas (1882-1954) a data alusiva à Imprensa, no Brasil, era comemorada em 10 de setembro, quando começou a circular, após a chegada da Família Real no Brasil (1808), a Gazeta do Rio de Janeiro, periódico oficial do governo português.  Em 2001, a Fundação Assis Chateaubriand promoveu o translado dos restos mortais de Hipólito José da Costa da Inglaterra para o Museu da Imprensa Nacional em Brasília. O Patrono da Imprensa brasileira, atualmente, faz parte da “Galeria dos Heróis Nacionais”.

O 1º de junho nos remete, também, a um momento significativo da história da imprensa gaúcha: em 1827, há 187 anos, nascia o Diário de Porto Alegre, primeiro jornal a circular na Província de São Pedro (RS). Criado sob a proteção do Presidente da Província, o Brigadeiro Salvador José Maciel, o jornal possuia duas páginas, medindo 30 cm de altura por 18 cm de largura.  O Diário de Porto Alegre circulava diariamente, exceto em “dias santos” e feriados, sendo seu título uma homenagem a capital da Província de São Pedro (RS). A sua circulação se tornou possível graças à participação de dois franceses, Dubreuil e Estivalet, responsáveis por sua composição e impressão que desertaram das tropas do Gen. Alvear durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828).  Seu primeiro redator e administrador foi João Inácio da Cunha, seguido por Vicente Ferreira Gomes, o “Carona”. O primeiro periódico gaúcho trazia, em suas páginas, atos oficiais do governo da Província, anúncios, em geral, incluindo venda e aluguel de negros e notícias acerca do Comércio e Navegação.
A Tipografia Rio-grandense foi comprada por meio de subscrição pública, no Rio de Janeiro, tendo chegado a Porto Alegre, em 04 de agosto de 1822, a bordo do Bergantim Reino Unido. Passaram-se cinco anos, para que a mesma fosse ativada e imprimisse nosso primeiro jornal, que circulou até 30/06/1828. Após o  Diário de Porto Alegre, circularam vários periódicos de cunho político e ideológico, sendo a maioria de curta duração. De acordo, como historiador Aurélio (1879-1945), entre 1827 e 1838, circularam 35 jornais. Estes jornais fomentaram a eclosão da mais longa guerra civil: a Revolução Farroupilha (1835-1845) que combateu o centralismo do Império e os abusos econômicos em relação à Província de São Pedro (RS). Dentro deste contexto, Legalistas (Conservadores/Caramurus) e revolucionários Liberais se digladiaram, defendendo suas posições políticas nas páginas desses jornais.
A leitura dos jornais, que circularam nos primórdios da nossa imprensa, é um mergulho no oceano do tempo. O Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, fundado em 1974, cuja criação teve o apoio incondicional da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), guarda e preserva estes periódicos que representam verdadeiras relíquias da História do Rio Grande do Sul e sua Imprensa escrita.

Por Carlos Roberto da Costa Leite,

Pesquisador e coordenador do Setor de Imprensa do Musecom

Bibliografia

COSTA, Hipólito José. Narrativa da Perseguição e Prisão pelo Santo Ofício. Porto Alegre: Ed. ARI / Sulina, 1975.

QUEVEDO, Raul. Em Nome da Liberdade / A saga de Hipólito da Costa. Pelotas: UFPEL 1997.
RIZZINI,Carlos. Hipólito da Costa e o Correio Braziliense. São Paulo: Companhia Editorial Nacional,1957.
SILVA, Jandira M.M.da ; CLEMENTE, Ir. Elvo; BARBOSA Eni. Breve Histórico da
Imprensa Sul-Rio-Grandense.  Porto Alegre: CORAG, 1986.
SOBRINHO, Barboda Lima. Hipólito da Costa: Pioneiro da Independência.
Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1996.