1º edição do Encontros Didáticos de Comunicação

No dia 18 de abril, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa promoveu e sediou a primeira edição do Encontro Didático de Comunicação. Diante de um público composto por alunos de universidades como PUCRS, UFRGS, Uniriter e Unisinos juntamente com seus professores e futuros convidados do projeto, os jornalistas Carlos Alberto Kolecza e Wanderley Soares, o evento contou com a presença do jornalista Elmar Bones da Costa.

O número de participantes foi limitado nesta primeira edição do projeto para que se criasse um clima de cumplicidade e intimidade intelectual de maneira a administrar, com mais facilidade, a palavra.

“A sociedade brasileira já está exigindo que os veículos de comunicação sejam cada vez mais democráticos. As novas gerações de jornalistas que estão chegando ou chegarão ao mercado de trabalho terão um grande desafio de conquistar e fortalecer a democracia nessa área. Hoje, poucos grupos econômicos dominam a comunicação no Brasil, gerando uma contradição: o País respira um clima politicamente flexível, depois de uma ditadura de 21 anos, mas o mercado de trabalho para jornalistas se estreita. Isso ocorre em função da concentração da informação entre escassos detentores do poder econômico.”, contou Elmar Bones da Costa.

Daqui a cinco ou dez anos, a comunicação, previu o criador do jornal JA, alcançará um ambiente no Brasil bem mais democrático, por pressão da sociedade brasileira. Cada vez mais as comunidades estão indo para as ruas exigir seus direitos, o que é um sinal de que as coisas estão mudando. Essa mobilização acontece há muito tempo, mas quando dois jovens navegaram num barquinho no Arroio Dilúvio, protestando contra o aumento da passagem de ônibus há algum tempo, o registro noticioso foi muito discreto, quase inexistente.

Um dos caminhos para o Jornalismo mais democrático está nos jornais para e sobre bairros. Em 1999, esses jornais somavam 40 em Porto Alegre. Hoje, seu número é bem mais reduzido, em torno de 16, mas dá para perceber que a informação veiculada por eles repercute nas comunidades, movimentando-as para que lutem por certas causas. Isso foi notado pelo convidado, com passagens pelo Jornal do Brasil, Veja, Realidade, Gazeta Mercantil, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Coojornal, A Platéia de Livramento e O Estado de São Paulo, quando editava o jornal JA Bonfim. “Quando a publicação transmitia alguma informação sobre peleias comunitárias do bairro, as reuniões chegavam a atrair cerca de 300 pessoas para discutir os problemas.” conta.

Foi um jornal de bairro, dos Moinhos de Vento, que acabou provocando a primeira passeata de ricos em Porto Alegre. Elas se indignaram, indo para as ruas, para evitar que os casarões históricos daquela área fossem demolidos com a construção de espigões, o que revela a força que esses jornais das comunidades expressam.

O jornalista acredita que essas publicações são um ótimo espaço para os jovens jornalistas aprenderem as técnicas da profissão. “Esse aprendizado se fortalece com a necessidade de procurar as fontes onde se encontram, o que permite um contato pessoal com elas. Um nome escrito errado num jornal de bairro inevitavelmente será cobrado pelo entrevistado, quando se encontrar com o repórter, ao passo que num grande jornal poderá passar batido, a não ser que seja de uma autoridade ou um grande empresário.” explica.

Como editor Costa tem incentivado repórteres a procurarem as fontes, indo de encontro a uma tendência do Jornalismo atual de só receber nas redações informações prontas, por meio dos releases, sem que sejam checadas e possam ser mostradas outras faces da realidade e a notícia não se restrinja a uma só versão. “Quando o jornalista vai em busca da fonte, no mínimo ele tem outro olhar diante do fato, e esse olhar, é um exercício que os jornalistas deveriam treinar.” conta.

Mesmo sem serem concorrentes, constatou o jornalista, os grandes grupos de comunicação abafam os veículos comunitários, por nutrirem o interesse de manter o poder, praticamente absoluto, da comunicação em suas mãos.

Para Costa, a responsabilidade dos jornalistas é muito grande no exercício da profissão. “É equivocado pensar que aquela matéria que será veiculada não terá nenhuma repercussão, e pode dar margem a que o profissional a construa de qualquer forma. A matéria será assimilada por um público, e é essencial que o jornalista tenha consciência moral e ética da influência do seu trabalho sobre as pessoas.” explica.

Diante de um público basicamente composto por jovens na faixa dos 18 a 21 anos, Costa sublinhou que somente depois de dez anos de Jornalismo conseguiu começar a controlar o nervosismo na hora de escrever matérias. Ainda hoje, com 40 anos de profissão, sente-se inseguro diante de pautas com as quais não guarde muita familiaridade e procura pedir às fontes que esclareçam bem as questões. Com isso, a matéria pode surgir a mais correta e precisa possível. Com essa atitude, não se importa de parecer distante do conhecimento que a pauta suscita.

Cobertura do evento realizada pelo jornalista e responsável pelo acervo de Rádio e Fonografia

do Museu da Comunicação, Roberto Luiz Antunes Fleck.